A Rede como interface educativo 

reflexões

 


Atualmente a internet é já utilizada para muitos fins na educação, tais como a publicação de informações das instituições e cursos, distribuição de materiais do professor para os alunos e forma de comunicação síncrona e assíncrona on-line entre professores, entre professores e alunos e entre os próprios alunos. Tal como refere Grajek (2021), a evolução tecnológica e transformação digital das instituições educativas tem vindo a possibilitar o desenvolvimento de sistemas de serviços integrados para apoiar todo o ciclo de vida do aluno, desde a prospecção até a matrícula, todas as etapas de aprendizagem e, inclusivamente, acompanhamento na profissão com a criação de oportunidades de formação ao longo da vida. Os serviços digitais vão sendo redesenhados tendo em mente a experiência do aluno e as ferramentas de gestao vão-se adaptado de modo a permitir uma experiência coerente que integre, eduque e ligue os estudantes.

No entanto, utilizar a web para melhorar a qualidade da educação implica muito mais, urge perceber de que forma esta vivência da sociedade em rede muda a nossa forma de estar, de aprender e de ser, para compreender como é que pode contribuir para criamos ecossistemas educacionais dinâmicos e capazes de evoluir e se adaptar às exigências do mundo atual e do futuro.

Face à revolução tecnológica e ao seu impacto na sociedade atual, os vídeos de Michael Wesch mostram que existe necessidade de alteração dos paradigmas educacionais [no ensino superior], de forma a acompanhar a forma como a tecnologia está a mudar-nos. As atividades escolares estruturadas de forma tradicional não podem competir com a riqueza das aprendizagens informais que estão acessíveis na web sob a forma de recursos multimédia, palestras por especialistas internacionais de qualquer parte do mundo tornadas acessíveis através do Youtube (por exemplo), espaços de discussão e fóruns temáticos colaborativos, e uma diverso manancial de interfaces flexíveis especializadas e dinâmicos que permitem a conexão entre pessoas de todo o mundo que partilham o interesse (e conhecimento) sobre um qualquer assunto. Dos vídeos analisados podem ainda retirar-se ilações acerca do rumo para onde a sociedade em rede caminha, transformando a educação e os educandos, aprimorando-se novos paradigmas e novos modos de se pensar a função social da educação, tão bem explicada na literatura inicialmente referida neste conjunto de posts.

A utilização das redes sociais por todos, mas sobretudo pelos jovens que já nasceram na era das tecnologias e têm uma forte presença no mundo digital, onde revelam os seus desejos e expetativas de forma transparente e automática, permite compreender a forma como os estudantes contemporâneos concebem a aprendizagem ao logo da via e perceber as preocupações que demonstram em relação ao seu futuro. São estes os jovens que desafiam o sistema educacional, revelando uma intervenção mais ativa na deteção e introdução de alterações necessárias, o que poderá revelar-se como uma mais-valia para a implementação da mudança do paradigma educacional.

Partindo do pressuposto de que educação não é só instrução, mas é também transmissão de valores, a participação por via das redes pode ser um forte instrumento disseminador de valores.

No entanto, a grande contribuição que as tecnologias podem dar no acesso à educação na globalização da mesma, não será no âmbito dos utilizadores, mas sim nos construtores de informação e partilha, que devem munir-se de ferramentas não só digitais, mas principalmente conceptuais para reformar a educação, repensando-a a partir de dentro como uma forma de desenvolvimento de novas capacidades, atitudes e competências capazes de nos tornar mais aptos a interagir em sociedade e evoluir com ela.

Da mesma forma que as redes sociais promovem as relações de igualdade entre os seus utilizadores, criando comunidades de partilha e entreajuda, em que todos ensinam e todos aprendem, também as instituições educativas deveriam basear as suas práticas em relações de parceria, mobilização e solidariedade, criando oportunidades de ação coletiva do exercício da cidadania e promovendo a aprendizagem a partir de tópicos de interesse atual agregando estudantes em torno de um objetivo comum, cumprindo assim o seu papel social de preparação para o futuro, de valorização do contexto e de atenuação das desigualdades. O professor deixa aqui de ter o papel principal no processo de ensino-aprendizagem e deixa de ser o detentor do conhecimento, passando a atuar como facilitador do acesso ao conhecimento, orientador, e questionador, promovendo a autocrítica e a autoconsciência. Os alunos passam a ser autores da construção do seu conhecimento, num processo partilhado com os pares e mediado pelo professor, aprendendo a expressar ideias, participar em discussões e ser, eles próprios, produtores de conhecimento e veículos de ensino. Vemos aqui um retomar das ideias de Teixeira, Bates e Mota (2019), que defendem que a sociedade em rede impõe uma reorganização das instituições educativas que implica, entre muitos outros aspetos diferenciadore sdo ensino tradicional, uma maior participação dos alunos no co-design e co-avaliação da sua aprendizagem.

Apesar de todas as suas potencialidades, há algo que a educação não pode descurar: o acesso generalizado a uma quantidade massiva de informação (nem sempre credível ou segura) leva-nos a questionar o papel da educação no desenvolvimento do espírito crítico e da capacidade das pessoas procurarem, encontrarem e discernirem informações relevantes. Mais do que acumular informações, importa aprender a aprender, aprender a pesquisar, aprender a raciocinar, tudo competências de nível superior, o que torna o papel do professor cada vez mais exigente e o da educação cada vez mais fundamental numa sociedade que se quer informada, mas, sobretudo, reflexiva.

Para além da educação formal, destinada sobretudo aos mais jovens, importa também repensar neste novo contexto de sociedade em rede a questão da autoformação principalmente no contexto de aprendizagem ao longo da vida. As várias mudanças sociais que atravessamos, como sejam o envelhecimento das populações, a idade tardia de aposentação em várias profissões, a evolução tecnológica que leva à introdução de necessidades de formação e atualização constantes, têm contribuído para o incremento da necessidade de aprendizagem ao longo da vida por um número cada vez maior de pessoas, seja através de processos educativos formais (obtenção de estudos de nível superior) como informais (cursos não graduados, autoformação, etc.). Segundo Grajek (2021) é por este motivo que os líderes institucionais têm vindo a promover e incentivar o desenvolvimento e implementação de novas formas de proporcionar uma aprendizagem ao longo da vida. Este incentivo tem-se refletido num aumento da oferta de cursos (graduados ou não) por parte das instituições de ensino, em muitos casos no âmbito de parcerias com empresas e organizações, fortalecendo a relevância da aprendizagem ao longo da vida e conectando os conhecimentos adquiridos à melhoria do desempenho profissional por via da qualificação dos trabalhadores.

Em paralelo ao aumento da oferta institucional, têm vindo a surgir uma multiplicidade de iniciativas que contribuem para um aumento considerável do número de pessoas a recorrer aos recursos disponíveis na web para a sua autoformação. De facto, a disponibilidade de cursos, trabalhos académicos, palestras e inúmeros outros recursos, de forma gratuita através da web, constituem um estímulo à aprendizagem e ao enriquecimento intelectual por parte dos indivíduos. E o facto de ser possível encontrar também na rede a interação que permite construir uma relação dialógica de troca de ideias, experiências e conceções acerca dos mais variados assuntos, contribui para que esta seja percecionada como um interface educativo acessível e gratuito. Há que ter a noção, porém, de que nem todas pessoas são capazes de autoformação, e que esta requer muitas outras competências (responsabilidade, autoconsciência, espírito crítico, motivação, proatividade, autonomia, etc.) que terão de ter sido aprendidas numa fase anterior, por via da educação. O que nos leva à conclusão de que, por muito promissora e facilitadora que seja a Rede, ela não poderá substituir-se por completo ao papel do professor. No entanto, a sua evolução tem-se constituído como motor de uma mudança que tem vindo a devolver à educação a sua missão humanizadora e igualitária.

 

 

 

 

 

 

 

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